Câncer infantil recua, mas leucemia ainda lidera no Pará
Por jimmynight
Publicado em 24/11/2025 02:03
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                  Dia Nacional de Combate ao Câncer Infantil reforça a importância da prevenção e do diagnóstico precoce. No Pará, o alerta ganha ainda mais relevância: Em 2025, o estado registrou 466 casos de câncer infantojuvenil entre crianças e jovens de 0 a 19 anos, sendo a leucemia o tipo mais frequente no público de 0 a 14 anos, segundo a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa). O número, contabilizado até 11 de novembro, é menor que o observado nos anos anteriores: foram 637 casos em 2024 e 539 em 2023. A Sespa destaca que, a partir dos 15 anos, os carcinomas de tireoide se tornam os mais prevalentes. Entre a população infantojuvenil, os tipos mais recorrentes são a leucemia linfóide (197 casos em 2025, 278 em 2024 e 249 em 2023), a neoplasia maligna de outras glândulas endócrinas e estruturas relacionadas (39 casos em 2025 e 97 em 2024) e a neoplasia maligna de outras partes ou não especificadas da língua (25 casos em 2025, 28 em 2024 e 27 em 2023).

              SINTOMAS O câncer infantil raramente é a primeira hipótese considerada pelos pais. Ainda assim, a oncologista pediatra Alayde Vieira reforça a necessidade de vigilância constante e observação minuciosa de sinais que podem indicar a doença. Segundo ela, febre persistente por mais de 15 dias sem causa definida, perda de vitalidade, manchas roxas ou pintas vermelhas sem histórico de trauma, sangramentos e palidez progressiva merecem atenção imediata. A médica destaca ainda outros sintomas que exigem cuidado. “Aumento do volume abdominal, perda de peso sem explicação, dores que começam localizadas e depois se espalham, irritabilidade, vômitos e dores de cabeça que acordam a criança à noite. A regressão de marcos do desenvolvimento também é um alerta. Nos tumores ósseos, a dor costuma ser localizada e progressiva, não melhora com analgésicos ou massagem e, muitas vezes, vem acompanhada do aumento do membro afetado”, explica. No Pará, a leucemia é não apenas o tipo de câncer infantil mais frequente, mas também um dos mais perigosos, justamente por surgir de forma inesperada, alega a médica. Por isso, a especialista enfatiza a importância de consultas regulares e acompanhamento constante. “As leucemias agudas podem aparecer no intervalo entre um hemograma e outro, mesmo quando os exames são solicitados com frequência. É um desafio para os pais estarem atentos e para os pediatras identificarem alterações que atinjam mais de duas séries do hemograma. Esses podem ser sinais muito precoces”, afirma.

                      A semelhança dos sintomas com os de doenças comuns na região, como a dengue, também dificulta o diagnóstico inicial. “A dengue causa febre, dor óssea, cansaço, anemia e queda no número de plaquetas, assim como a leucemia. Porém, é uma condição autolimitada, que se resolve, em geral, em até 15 dias, mesmo nas formas hemorrágicas. Já a leucemia é progressiva”, ressalta. Outros tipos de câncer comuns em crianças e adolescentes também exigem atenção redobrada. Entre elas estão os linfomas, que costumam se manifestar pelo aumento dos gânglios linfáticos. “O tamanho normal é o de um grão de arroz. Quando esses gânglios aumentam sem dor, sem vermelhidão e não desaparecem, especialmente no pescoço ou nas regiões supra e infraclaviculares, precisam ser investigados, pois podem indicar câncer infantojuvenil”, orienta Alayde.

   A oncologista lembra, ainda, que tumores cerebrais em pré-adolescentes e adolescentes podem provocar mudanças de comportamento. “O jovem pode se tornar mais isolado, e os pais tendem a atribuir isso a fatores emocionais ou sociais. Porém, dependendo da localização do tumor, essas alterações comportamentais podem ser um dos primeiros sinais”, conclui.

                    Imunoterapia já trata tumores em crianças

O tratamento do câncer infantil varia conforme o tipo e a evolução da doença. Ainda assim, segundo o oncologista clínico Rodnei Macambira, a quimioterapia permanece como a abordagem mais utilizada. “Os tratamentos mais empregados ainda perpassam pela quimioterapia em altas doses. Mas, diferente de vários cânceres da idade adulta, contamos também com radioterapia e com a quimioterapia cirúrgica localizada, realizada por cirurgiões pediátricos e oncológicos. Além disso, alguns tumores infantis já podem ser tratados com imunoterapias e terapias-alvo”, explicou.

       O médico destaca que o processo se torna ainda mais complexo devido ao difícil acesso ao atendimento especializado, sobretudo para quem vive em cidades menores, onde há poucos profissionais. Os efeitos colaterais também tornam a jornada mais delicada para as crianças.

    “Temos poucos centros especializados e uma carência de profissionais dedicados à área, o que faz com que grandes centros concentrem pacientes de diversas regiões.

     Isso dificulta o manejo e o acompanhamento adequado. Quanto ao tratamento em si, o manejo dos efeitos colaterais é parecido com o do câncer em adultos, exigindo prevenção e antecipação dos sintomas da quimioterapia, radioterapia e cirurgias.

         A diferença está nas particularidades das crianças, como ajustes de dose e especificidades terapêuticas”, afirmou o médico.

       Para Macambira, oferecer cuidado integral é essencial no enfrentamento da doença. “Cada vez mais, os pacientes oncológicos devem ser vistos como pessoas com uma história de vida e de superação, e isso vem sendo muito bem trabalhado. Quando conseguimos compreender o paciente além da doença, conseguimos oferecer um tratamento e um manejo oncológico muito melhores”, concluiu.

                 CAMPANHAS

                 Conforme a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), as unidades de atenção básica, por meio da Estratégia Saúde da Família (ESF), são a principal porta de entrada para a identificação de sinais suspeitos de câncer infantojuvenil. Quando necessário, os pacientes são encaminhados para a triagem oncológica estadual, realizada na Universidade Federal do Pará (UFPA). Caso a suspeita seja considerada elevada, o direcionamento ocorre para uma das unidades de referência: o Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo, em Belém, ou o Hospital Regional do Baixo Amazonas Dr. Waldemar Penna, em Santarém.

                  A Sespa mantém ações contínuas voltadas ao diagnóstico precoce da doença. Desde agosto deste ano, a secretaria, em parceria com o Instituto Ronald McDonald e com chancela da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica, promove campanhas específicas para incentivar a detecção antecipada.

           A iniciativa contempla prioritariamente as unidades de Atenção Básica da Região Metropolitana de Belém e mobiliza dezenas de profissionais de saúde, com o objetivo de ampliar a capacidade de identificação precoce e fortalecer a rede estadual de média e alta complexidade.


 

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