C onsolidadas como espaços de transformação social, cidadania e aprendizado, as Usinas da Paz disponibilizam diversos serviços à população. E é nelas que milhares de paraenses têm encontrado uma oportunidade de retomar os estudos e transformar suas trajetórias por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), oferecida gratuitamente em parceria com a Secretaria de Estado de Educação (Seduc). Voltado a pessoas que não tiveram acesso à escola ou não concluíram a educação básica na idade adequada, o programa alia alfabetização, escolarização e inclusão social, fortalecendo a autoestima de jovens, adultos e idosos. Aos 63 anos, Kátia do Socorro Silva Parente voltou a ocupar uma carteira escolar na Usina da Paz da Cabanagem, em Belém, onde há dois anos participa das aulas de alfabetização e comemora cada conquista na leitura e na escrita. Ela explica que precisou recomeçar do básico para desenvolver a leitura. “Eu comecei conhecendo as letras e palavras pequenas para aprender a ler. Depois fui aprendendo palavras maiores. Hoje eu já consigo ler um pouco mais. Ainda tenho dificuldade para escrever algumas coisas, mas ler eu já consigo”, afirma.Kátia conta que buscou a alfabetização ao saber da turma na Usina da Paz. “Quando eu soube que tinha alfabetização, resolvi me inscrever. Achei que fosse voltar à primeira, segunda ou terceira série, mas era do zero mesmo. Foi muito bom para mim. Muitas coisas a gente esquece, mas, quando a professora explica, a gente entende e vai aprendendo”, comenta. Moradora da Cabanagem, ela divide a rotina entre afazeres domésticos, estudos e atividades da Usipaz, incluindo exercícios físicos. Segundo Kátia, a retomada dos estudos trouxe benefícios que vão além da aprendizagem. “Tem feito muita diferença para mim. A gente vai aprendendo mais e também vai esquecendo um pouco os problemas. Quando está estudando, fazendo atividade, a mente fica ocupada. Para mim, é um alívio”, destaca. Kátia também incentiva outras pessoas a voltarem à sala de aula. “Não desistam de estudar, porque nunca é tarde para aprender.”, diz ela, que sonha em fazer o Enem.Outra história de superação é a da costureira Maria Amélia Reis Souza, de 64 anos. Sem lembrar exatamente em que série interrompeu os estudos, ela decidiu procurar a Usina da Paz para aprender a ler e compreender melhor as anotações, medidas e marcações utilizadas no trabalho. “Quando eu cheguei aqui, não sabia nada. Mal assinava o meu nome. Hoje eu já estou lendo um pouco, já consigo fazer atividades e formar frases. Estou muito feliz. Só tenho que agradecer a Deus, aos professores, à direção e a todos que ajudam a gente”, reconhece. Maria Amélia conta que quase desistiu no início, mas foi incentivada pela filha. “Eu saí da fila triste, mas me explicaram que teria alfabetização. Minha filha me incentivou muito e eu resolvi vir. Comecei fazendo as atividades aos poucos e hoje já consigo ler. Não muito ainda, mas já consigo”, conta. Os avanços também refletiram no trabalho. “Melhorou muito. Hoje eu já entendo melhor os moldes, consigo fazer as medidas e compreender melhor algumas coisas da costura. Isso me ajudou bastante”, destacou. Ela afirma que pretende continuar estudando. “Enquanto tiver professora e eu puder continuar, eu quero seguir aprendendo e melhorando. O meu projeto é continuar estudando e aproveitar tudo o que eu puder aprender”, pontua. Ela também celebra conquistas simples da leitura. “Hoje eu consigo ler palavras como casa, bola, dado e mola. Pode parecer simples, mas para mim é uma grande conquista”, ressalta Por trás das histórias de superação vividas por alunos como Kátia e Maria Amélia há um trabalho pedagógico desenvolvido nas turmas de alfabetização da Usina da Paz da Cabanagem, conduzido pela professora Denise de Andrade Estumano. Pedagoga e mestranda em Educação, ela explica que o trabalho com jovens, adultos e idosos exige sensibilidade e atenção às necessidades individuais de cada aluno. “Eles chegam com a expectativa de aprender a ler e escrever. Por isso, o acolhimento é essencial para desenvolver um bom trabalho. O professor precisa deixá-los mais tranquilos para que possam aprender. Nós buscamos criar um ambiente alfabetizador e motivador, porque isso faz diferença no desenvolvimento deles”, afirma. Segundo Denise, as atividades incluem práticas externas que ajudam a relacionar o aprendizado com situações concretas do cotidiano. . “Nós realizamos aulas extraclasse e trabalhamos o letramento envolvendo a nossa fauna e flora. Essas atividades ajudam a criar um ambiente mais motivador para eles. Quando o aluno se sente acolhido e estimulado, o aprendizado acontece de forma mais natural”, explica. Ela observa impactos diretos no dia a dia dos alunos “Muitos relatam que não conseguem pegar um ônibus por causa da falta da leitura, não conseguem dar um troco ou até mesmo fazer uma medida. Aqui eles aprendem não apenas a ler e escrever, mas também uma leitura de vida, necessária para conduzir as atividades do cotidiano”, destaca.ara Denise, o trabalho nas Usinas da Paz representa um importante instrumento de inclusão social e cidadania. “O nosso papel é acolher essas pessoas e trabalhar a inclusão. São comunidades que muitas vezes dependem desse suporte para melhorar a qualidade de vida e ampliar as oportunidades no mercado de trabalho”, ressalta. Ela explica ainda que o primeiro passo é identificar o nível de cada aluno para construir estratégias adequadas de ensino. “É essencial saber onde eles pararam. Há alunos que reconhecem apenas as letras e outros que já conhecem as sílabas. A partir dessa avaliação, conseguimos desenvolver um trabalho mais eficiente. Quando eles percebem que estamos respeitando a trajetória de cada um, ficam mais motivados”, comenta. Desde que assumiu a turma, em 2026, Denise percebe avanços. “Eu já vi um grande progresso deles em relação à leitura e à escrita. Muitos chegam inseguros, mas aos poucos vão ganhando confiança e desenvolvendo suas habilidades”, pontuou.Para a pedagoga, acompanhar essa transformação é uma das maiores recompensas. “Quando escolhi a Educação, sabia que tinha uma missão. Trabalhar com pessoas que realmente precisam desse apoio é algo muito motivador. Quando a gente faz o bem, a gente também se sente bem. Ver a mudança na vida dessas pessoas é gratificante e faz parte da minha missão como educadora”, afirmou. Denise reforça que a alfabetização exige inclusão e incentivo. “Eles retornam aos estudos muitas vezes partindo do zero. Por isso, precisamos trabalhar com inclusão, respeito e incentivo. Com o suporte das Usinas da Paz, conseguimos desenvolver um trabalho muito importante para a aprendizagem e para a autoestima desses alunos”, conclui. As histórias de Kátia e Maria Amélia refletem uma iniciativa que vem sendo desenvolvida nas Usinas da Paz desde a inauguração da primeira unidade, no Icuí-Guajará, em Ananindeua, em outubro de 2021. Segundo o coordenador do Programa TerPaz da Seduc, Rodrigo da Silva de Jesus, 764 alunos já foram atendidos, desde então, sendo que atualmente 89 estão nas tividades de alfabetização. Hoje, as turmas da EJA estão presentes nas 31 Usinas da Paz em funcionamento no Pará. “A formação das turmas ocorre conforme a demanda identificada em cada território. Dessa forma, as unidades podem contar com uma ou mais turmas em funcionamento, de acordo com o interesse da comunidade e o número de matrículas realizadas”, explica. Segundo Rodrigo, a ampliação da oferta acompanha a expansão do próprio programa. “Com a inauguração de novas Usinas da Paz, a atividade poderá ser disponibilizada para atender a população local, ampliando o acesso à alfabetização e à inclusão educacional de jovens, adultos e idosos”, informa. Rodrigo destaca que a proposta foi elaborada pela equipe técnica da Seduc e está alinhada às diretrizes do Programa Alfabetiza Pará, com foco em leitura, escrita e matemática, além do incentivo à continuidade dos estudos. “A proposta prioriza o desenvolvimento das habilidades de leitura, escrita e raciocínio lógico-matemático. A atividade é destinada a jovens, adultos e idosos que não foram alfabetizados ou que necessitam fortalecer competências básicas de aprendizagem”, destaca. Segundo ele, o objetivo é ir além da alfabetização e incentivar a continuidade da trajetória escolar. Além da alfabetização, as Usinas da Paz oferecem uma ampla rede de serviços voltados à cidadania, saúde, qualificação profissional, esporte e lazer. Na Usina da Paz da Cabanagem, por exemplo, mais de 70 serviços são disponibilizados gratuitamente à população. Segundo o diretor da unidade, Vando Silva, o objetivo é aproximar serviços essenciais das comunidades e facilitar o acesso da população a oportunidades que antes exigiam deslocamentos para outros pontos da cidade. “A Usina da Paz da Cabanagem dispõe de mais de 70 serviços, entre cursos profissionalizantes, atividades esportivas, assistência social, atendimento psicológico, odontologia, clínica médica e emissão de documentos”, explica. De acordo com Vando, os serviços não são exclusivos para moradores da Cabanagem. “A Usina da Paz é aberta para todos. Qualquer pessoa pode utilizar os serviços, seja morador da Cabanagem, de outros bairros ou mesmo de outros municípios”, destaca. O diretor também ressalta que os cursos de qualificação profissional têm contribuído para a inserção de moradores no mercado de trabalho e para a criação de pequenos negócios.,,,Material da Jornalista ANA LAURA CARVALHO Da Redação de O LIBERAL.