Um museu para todas as pessoas”: visitantes destacam recursos de acessibilidade em exposições
Raimundo Rodrigues frequenta o Museu Goeldi há 30 anos e percebe os avanços na implementação dos recursos de acessibilidade: "Agora, tem mapa tátil" (Carla Serqueira/MPEG)
Publicado em 24/09/2026 18:44
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Raimundo Rodrigues frequenta o Museu Goeldi há 30 anos e percebe os avanços na implementação dos recursos de acessibilidade: "Agora, tem mapa tátil" (Carla Serqueira/MPEG)

aimundo Rodrigues caminhava pelo Parque Zoobotânico do Museu Goeldi. A única companhia era a bengala, com a qual riscava o chão para perceber o caminho. “Eu frequento este museu há mais de 30 anos”, disse, pouco antes de visitar a exposição “Diversidades Amazônicas” e, na sequência, participar da abertura da 20ª Primavera dos Museus, marcada pelo lançamento da exposição “Tramas que unem mundos”. Integrante da Associação Paraense de Pessoas com Deficiência (APPD), enquanto caminhava, Raimundo reconheceu os avanços em acessibilidade implementados pela instituição, ao longo do tempo. “Trinta anos atrás, não tinha os recursos que tem hoje, como os sistemas em braille. Mapa sempre existiu, mas para pessoas que enxergam. Agora, já tem mapa tátil”, comentou.

Quando entrou na “Diversidades Amazônicas”, Raimundo já tinha circulado entre os animais. “Fui lá no jacaré, nos macacos, nos papagaios, nas araras. Para mim, é um prazer caminhar por aqui. A pessoa que não enxerga, sente os aromas da natureza, pode perceber o cheiro da floresta, sabe? Eu escuto o som dos passarinhos, das cigarras, o barulho do vento. Tudo isso, para mim, traz satisfação, porque a gente não enxerga, mas ouve”. Na visita à exposição, os sentidos de Raimundo também se transmutaram para as pontas do dedo. Na entrada, ele sentiu os tecidos e leu as placas escritas em braille. Em outros momentos, decifrou imagens em fotos táteis, tocou em rochas e cerâmicas, apalpou réplicas de animais e ouviu as audiodescrições disponíveis no trajeto, com traduções do que estava exposto nas paredes e vitrines. Além de áudios, pisos táteis e placas em braille, as exposições também contam com intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais) em vídeos.

Com o tema “Museus para todas as pessoas”, até o próximo sábado (26), o Parque Zoobotânico (PZB) realiza a 20ª Primavera dos Museus, com atividades inspiradas numa mobilização nacional, promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), que convoca instituições culturais e científicas a interagirem com seus públicos. A semana também é marcada pelo Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado na segunda-feira (21). Entre os destaques da programação no Parque, está a exposição “Tramas que unem mundos”, que permanecerá em cartaz até o dia 24 de outubro, no Centro de Exposições Eduardo Galvão. Com a participação de integrantes da Associação Paraense de Pessoas com Deficiência (APPD), a mostra apresenta peças elaboradas nas oficinas de bordado e de argilogravura, realizadas no PZB, durante a Semana dos Povos Indígenas, em abril.

Uma mulher negra com deficiência visual toca uma foto em alto relevo
Rosiane Araújo visitou a exposição Katxar kum neero (Carla Serqueira/MPEG)

“Hoje estou tendo a oportunidade de sentir”

As exposições “Tramas que unem mundos” e “Diversidades Amazônicas” podem ser visitadas no térreo do Centro de Exposições Eduardo Galvão. No mesmo prédio, no mezanino, está em cartaz a exposição “Katxar kum neero”, que conta o processo de retirada e a retomada do território pelos povos Katxuyana e Kahyana. Na entrada, Rosiane Araújo lia o painel de entrada com as mãos. A imagem tátil reproduz a identidade visual da mostra. Antes de ingressar no percurso da exposição, ao lado da filha Erem Santos e da arquiteta Martha Carvalho, responsável pelos projetos de acessibilidade do Museu Goeldi, Rosiane verificou o mapa tátil para checar onde havia recursos acessíveis dentro do espaço. Em seguida, caminhou até uma foto reproduzida em alto relevo e, com o toque, imaginou a mulher indígena amamentando a criança impressa na imagem.

“Estes recursos de acessibilidade são muito importantes porque aproximam as pessoas com deficiência visual dos espaços culturais. Eu gostaria que todos os museus do Estado seguissem o exemplo do Museu Goeldi”, enfatizou Rosiane, que é diretora de Cultura da APPD, no Pará. “Eu gostei muito de sentir as fotos. Eu gosto muito de arte, de exposições. Eu fiquei emocionada aqui, conhecendo a história dos povos indígenas. Muitas histórias como esta até então eu só ouvia, hoje estou tendo a oportunidade de sentir”, contou, depois de ter deslizado as mãos nos grafismos dos povos Katxuyana e Kahyana, escutado o depoimento de lideranças indígenas, de ter tocado em um estojo de palha, em peças de vestuário e em itens de miçanga, como brincos e braceletes feitos também com penas. 

Ainda na graduação, Martha Carvalho começou a desenvolver pesquisas no Museu Goeldi para ampliar a acessibilidade das pessoas com deficiência visual às exposições. “As exposições eram ainda muito visuais, principalmente as etnográficas, com peças em vitrines”. Segundo ela, desde 2006, a instituição busca avançar na recepção desse público, não só no Centro de Exposições Eduardo Galvão, mas no Aquário Jacques Huber e nos caminhos ao ar livre, entre os exemplares da fauna e da flora do Parque Zoobotânico, visando adequar-se às legislações e às normas, a exemplo da Norma ABNT 9050, que trata da acessibilidade em edificações, mobiliários, espaços e equipamentos urbanos. “Cada tecnologia assistiva serve de complemento a outra: um áudio-guia complementa um texto em braille, que complementa uma réplica, por exemplo. Assim, ampliamos a narrativa da exposição para aquela pessoa que está visitando poder aumentar o seu repertório”.

Uma política permanente de inclusão

Há quase 80 anos, em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos já dizia, em seu artigo 27, que “todo ser humano tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de usufruir das artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios”. No Brasil, apenas em 2015 foi promulgada a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência. Considerado o principal marco legal no país, a lei transfere a compreensão da deficiência como um problema de saúde individual para a perspectiva dos direitos humanos. 

Apesar de lentos, os avanços existem. É neste contexto de reconhecimento de direitos, que o Museu Goeldi amplia a acessibilidade de seus espaços com o objetivo de democratizar a ciência que produz. No Guia de Museus e Centros de Ciências Acessíveis da América Latina e do Caribe, a instituição paraense, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), aparece entre as 110 que expressam preocupação com a acessibilidade num universo de 464 mapeadas. O estudo foi publicado em 2017 pela Fiocruz.

Uma tela mostra uma mulher indígena expondo artefatos. Abaixo da tela, tem uma placa em Braille e no
Intérpretes de Libras, placas escritas em Braille e audiodescrições acompanham as pessoas com deficiência no trajeto das exposições (Carla Serqueira/MPEG)

Coordenador de museologia do Museu Goeldi, Emanoel Junior explica que os avanços em acessibilidade percebidos na instituição vão além da oferta de recursos essenciais, como piso tátil, audiodescrição e legendas em Libras, traduzindo-se na consolidação de uma política permanente de inclusão. “O grande diferencial dessa trajetória reside na atuação estratégica da Coordenação de Museologia, que atualmente conta com uma profissional arquiteta especializada no tema e que é responsável por articular as diretrizes institucionais com as reais demandas apresentadas pelas entidades de classe que representam pessoas com deficiência. Essa mediação qualificada garante que a acessibilidade seja implementada desde o planejamento inicial das exposições, transformando adequações técnicas pontuais em um compromisso contínuo”, enfatizou, se referindo a Martha Carvalho.

Para ele, os maiores desafios para ampliar o acesso ao conhecimento produzido pelos museus às pessoas com deficiência passam pela limitação de recursos orçamentários específicos, fundamentais para implementação e manutenção de tecnologias assistivas e para a capacitação de equipes. “Esse desafio também reside na necessidade urgente de compreender que a acessibilidade não pode ser restrita ao circuito das exposições físicas ou a eventos pontuais. Para que a democratização do conhecimento seja plena, as diretrizes de inclusão e o desenho universal (produtos, programas e serviços planejados para uso de todas as pessoas, sem a necessidade de adaptação) devem ser transversais e integrar todo o ecossistema da difusão científica, incorporando recursos de acessibilidade em publicações editoriais, plataformas digitais, eventos acadêmicos, oficinas educativas e nos materiais didáticos produzidos pelas instituições”, concluiu.

Texto: Carla Serqueira

Edição: Andréa Batista

 
SERVIÇO: Exposições acessíveis e Primavera dos Museus

SERVIÇO:

Exposições Diversidades Amazônicas, Tramas que unem mundos e Katxar kum neero

Local: Centro de Exposições Eduardo Galvão

Dias e horários: de quarta a domingo, das 9h às 16h.

Programação da 20ª Primavera dos Museus no Museu Goeldi

No Parque Zoobotânico - Centro de Exposições Eduardo Galvão

 

Dia 25/09 (Sexta-feira)

  • I Encontro da Diversidade e Economia Solidária: fortalecimento, autonomia e inclusão de mulheres, pessoas negras e comunidades LGBTI+. Horário: das 8h30 às 16h

Dia 26/09 (Sábado)

  • Trilhas guiadas pelo Núcleo de Visitas Orientadas do Serviço de Educação do MPEG: “Sustentabilidade”, “Visitão” e “Geopolítica”. Horário: saídas às 9h, em frente ao prédio da Rocinha, logo após a bilheteria.

  • Curso de formação de guias de turismo. Horário: 9h às 13h.

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