As lições de Ceuta
Por jimmynight
Publicado em 09/08/2026 18:33
Geral

Fernando Schüler, As lições de Ceuta

N ão fui o único, mas aquelas imagens mexeram comigo. A multidão de jovens marroquinos chegando em boias improvisadas e levantando as mãos para os céus, nas praias de Ceuta. Seria uma prova de que a humanidade fracassou, leio em um texto. A ideia é forte, mas equivocada. A humanidade nunca deu nem bem certo nem bem errado. Mesmo em seus piores momentos, quando os nazistas executavam a Solução Final em Auschwitz e Treblinka, jovens soldados caíam na Normandia, sob a artilharia alemã, para libertar a Europa da barbárie. A história é feita disso. Do melhor e do pior. Às vezes separados por muito pouco. O drama das migrações, em nossa época, conta exatamente esta história. Os jovens marroquinos falavam em “trabalho”. Alguns murmuravam a palavra “liberdade”. Mas a ideia muito real que capturava sua imaginação era “Europa”. E por nada desse mundo diria que eles estão errados. Nos tempos recentes nos habituamos a fazer troça de nossa própria herança civilizacional e dos sucessos que o Ocidente produziu, do qual a Europa é testemunho. Mas os marroquinos não se dão o direito a este luxo retórico. Eles sabem atribuir um sentido bastante real à ideia de um mundo que “dá certo”. E é sobre isto que o seu drama nos ensina. A história das migrações, fugas e todos os seus dramas funciona como uma espécie de sinal sobre a ambivalência do mundo. Foi assim com Cuba. A história trágica dos balseros, milhares de homens e mulheres que se arriscam no Estreito da Flórida em barcos improvisados por vezes com a carcaça de velhos Buick ou Chevrolets americanos dos anos 50. O que fazem estas pessoas arriscando a vida para levantar os braços aos céus, em Sombrero Beach? A mesma pergunta vale agora para os mais de sete milhões de venezuelanos que largaram tudo para tentar a vida na Colômbia ou no Brasil. Porque, afinal de contas, as pessoas fogem, migram, pedem refúgio, se arriscam em barcos feitos de pneus velhos? Arrisco dizer que elas sabem do mundo muito mais do que a maioria dos nossos “ideólogos”. Sabem que o mundo não é um fracasso, e é precisamente por isso que se movem. Por vezes fugindo de uma ditadura, por vezes da miséria, não importa. A direção do movimento raramente é aleatória. Se alguém quiser uma boa definição sobre o tipo de mundo no qual nossos migrantes arriscam tudo para ingressar, vale entender o que Daron Acemoglu chama de “instituições inclusivas”. O império da lei, das garantias individuais, direitos de propriedade e contenção do poder. Ele nos conta sobre as cidades de Nogales, no México, e a Nogales logo ao lado, no Arizona. Geografia e cultura similares. Instituições, não. Há um muro bem alto, no meio, e não há registros de migrantes arriscando a vida para pular na direção da Nogales mexicana. A história trágica dos migrantes tem o poder de nos ensinar muitas coisas. Desde que, por óbvio, estejamos dispostos a aprender. A história das migrações, fugas e todos os seus dramas funciona como uma espécie de sinal sobre a ambivalência do mundo. Fernando Schüler

é cientista político,doutor em filosofia e professor do Insper

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