Mais dos mesmos
A cada divulgação das listas de candidatos a cargos eletivos, homologadas pelas convenções partidárias como agora, o eleitorado consciente vê esvair mais uma oportunidade de melhoria da desejável qualidade da representação política e moral. Guardadas as exceções que sempre existirão, revelam o pouco interesse dos partidos na qualificação de seus quadros, preferindo optar pelo “mais dos mesmos”, dos votos e das benesses a qualquer custo. Em 1980, quando Ary do Cavaco e Bebeto di São João compuseram os versos de “Reunião de Bacana” jamais imaginariam que o refrão “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão” teria tamanha amplitude quase meio século depois, ao ritmo da dança das centenas dos que têm acordado ao som do tilintar das campainhas das residências dos bacanas destes tempos de operações juris-policiais nas vozes do conjunto “Exporta Samba” desde aquele ano. Práticas delituosas que escandalizam o país tem toda sorte de denúncias, inspirando a produção de memes, paródias musicais e demais formas existentes ou que virão a ser criadas, utilizando principalmente os recursos da tecnologia, sem que corrijam seus personagens. Parecem não causar qualquer constrangimento as falcatruas ostentadas nos tais sinais exteriores em riquezas, como nos incríveis assaltos às aposentadorias do INSS e do banco “Master”. Escândalos de roubalheiras institucionais e consequentes banimentos sempre ocorreram, ao longo da história política e administrativa brasileira, mas passaram a chocar nos últimos 20 anos, com o “mensalão” e a “Lava-jato”. Coube ao saudoso ministro Teori Zavascki, então relator no STF, uma das frases sobre a situação nacional, dizendo que “se puxa uma pena, vem uma galinha”, ao que se poderia acrescentar virem, geralmente, várias galinhas. Foi mais explícito, ao declarar que “O País está enfermo, às voltas com graves crises na área de natureza econômica, política e ética. Sem dúvida, é preciso que as enfermidades sejam tratadas, como estão sendo, e que tenhamos a coragem de ministrar os remédios amargos, quando necessário”. Contudo, nada pode fazer por morrer em 2017, num acidente aéreo, cheio de dúvidas que perduram até os dias de hoje, quando os episódios relacionados são lembrados. Na mesma linha, o ministro, Luís Roberto Barroso, hoje aposentado, destacou que “assim como, historicamente, se tornou inaceitável discriminar negros, bater em mulher e dirigir embriagado, não é mais aceitável desviar recurso público”. Já se havia manifestado escandalizado com os “modus operandis” e os bilhões envolvidos, classificados pelo ministro Gilmar Mendes como “de outra galáxia”, compondo palavras e opiniões como fio condutor. Políticos envolvidos em escândalos, nem por isso impedidos de voltar a ser candidatos e retornarem a mandatos eletivos até maiores, têm se enfileirado entre os favorecidos por uma legislação considerada permissiva. Figuram nas listas de candidatos habilitados ao próximo pleito eleitoral, constituindo, em muitos casos, verdadeiras árvores genealógicas. Inclui seis mil “fichas sujas” e renunciantes aos mandatos em malandragem legal para fugir à inelegibilidade a que renunciaram para não ficarem inelegíveis. Parece difícil, quase impossível, extirpar a podridão e/ou a renúncia geral, necessárias para alijar, também, as frondosas árvores genealógicas e quantos estão à sombra, já “ceivados” pelos “adubos” A cultura nacional de usos e costumes da coisa pública esta enraizada na vida nacional, razão principal das listagens de candidatos repletas das dinastias, gerando a escalada hereditária de fortunas familiares e infortúnios populares, sintetizados na ausência às populações. Resgatar a desejável qualidade da representação político=partidária da sociedade brasileira parece tão difícil quanto restaurar o prestígio da seleção de futebol no “ranking” mundial. Como restabelecer a ética e, com ela, a credibilidade na vida pública, sem expurgar os vendilhões da Pátria e impedir que sejam substituídos por criaturas à semelhança dos criadores, revistas e pioradas? Sem uma reforma de costumes arriscam a deixar tudo como está, ou até pior. Como disse Tom Jobim, “o Brasil não é para principiantes”. Linomar Bahia é jornalista e escritor, membro da Academia Paraense de Letras e da Academia Paraense de Jornalismo